agosto 05, 2007
. . : : Chamada a Cobrar : : . .
Claro que eu percebi que é você, como poderia ser diferente, é, eu sei que já faz um tempo, mas de certas coisas a gente não esquece. Assim como não me esqueci das sobrancelhas peludas do padre para quem me confessei antes da primeira comunhão, eu com medo me esforçando para lembrar de algum pecado que eu deveria ter cometido, afinal todo mundo peca, e ele com bolsas sob os olhos pensando só na festa que haveria depois, e me liberou sem que eu dissesse nada, nosso segredo em nome de Deus, e foi aí que eu deixei de acreditar. Não me lembro como foi a tal festa, deve ter sido aquelas quermesses de paróquia, aquela coisa pegajosa de tão provinciana, mas isso não tem a menor importância, o que eu quero te dizer é que eu nunca esqueceria da tua voz, seria ridículo. Claro, você está certa, eu sou ridículo, mas todo mundo é, a vida é ridícula, não, ninguém aqui está fazendo drama. Drama foi aquilo que você fez quando descobriu minha história com a, espera um pouco, não precisa gritar, não foi você quem me falou mil vezes que quem tem que ser fiel é cachorro? Pelo menos eu sou realista, e você que depois disso entrou em um delírio anos sessenta totalmente ultrapassado, isso sim é ser ridículo, chega até a ser piegas, viajar de carona e dormir em praias minúsculas pretensamente selvagens, porque na verdade todo mundo sabe que todas elas já estão loteadas, nem que seja por um bando de vendedores de artesanato, aquelas pulseirinhas bregas e cachimbos de durepóxi que usam pra fumar maconha, que você também deve estar fumando, e dormindo em cabanas de pescador e trepando com todo mundo sem medo de aids como se fossem santos imaculados, vivem como se estivessem em pleno apogeu hippie, when the moon is in the seventh house, todo mundo pelado, marginais. Não, desculpa, eu não queria te ofender, mas é que. Acho que isso tudo é uma bobagem, acho que poderíamos passar por cima dessas coisas, afinal não é nada se a gente lembrar de todo o resto, tanta coisa que a gente fez juntos, e os planos, eu quero saber, e os planos? Que absurdo, eu não penso só em mim, tudo o que eu fiz foi para a gente, não sei se você sabe que não se vive só de amor, paz e amor, não é assim? Existe um mundo de verdade e um trabalho, uma carreira, sem isso não se vive, cala um pouco essa boca, me deixa terminar, eu acho tudo isso muito bonito, esses sonhos todos e esperanças e apegos a coisas impossíveis, mas não é mais o tempo, já passou, não deu e nunca vai dar certo, se precisa de dinheiro e para isso alguém tem que trabalhar para te comprar os livros sobre mitologia indiana e os discos do madredeus e até os incensos com cheiro de detergente, é tudo igual, sem que se leve a sério a vida nada disso existe. Ah, é? Se o que eu digo é papo de burguês, todo esse besteirol no qual você se agarrou depois que abandonou nossa casa é delírio de perdedor, gentinha que não deu certo e quer arranjar desculpa para todos os fracassos, claro, é culpa do mundo, do sistema, da sociedade, do universo que conspira contra eles, mas nunca assumem nada, loucos, isso é que são, malucos. Ah, eu é que sou o louco agora? Só porque eu tenho dois tios esquizofrênicos, isso não quer dizer que eu seja doente mental, e além do mais eu me trato, coisa que você sempre se recusou a fazer, é medo, isso, medo, você nunca quis se enfrentar e ver as coisas como realmente são, a vida real. É, tão libertária que você é, tão idealista, e não pôde nem suportar a idéia de que eu tenha trepado uma vez só com outra mulher, que liberdade é essa que termina no meu próprio pau? Tantas noites e tantos cigarros e garrafas de vinho gastas falando que a monogamia é artificial e que não se deixa de amar alguém indo pra cama com outro, e no que tudo isso acabou? Um escândalo e você desaparece e depois me manda uns postais, todos com fotos de praia, porque não colocou logo um cacete, porque foi isso que você foi buscar, confessa agora, como assim se você fez isso é porque não tinha em casa, deixa de ser hipócrita, você é só discurso e nunca vai assumir porra nenhuma, não quis nem me dar a bunda e agora fica aí posando de musa de um bando de desdentados com a pele descascada e cérebro derretido de tanto chá de cogumelo, aposto que até com mulher já andou fodendo. Ciúme, essa é boa, eu tenho é pena de ti e uma certa autopiedade por um dia ter te amado, nem sei como fui tão burro, como assim você quer saber se agora eu sou feliz? Que tal perguntar se algum dia eu fui feliz contigo, não eu não sou hipócrita, não estou dizendo que não te amei porque seria mentira, seja lá o que amar alguém signifique, porque depois do você fez eu nem sei mais, juro. Quer saber do que mais, esse telefonema já está me saindo caro, nem sei de que raio de lugarejo você está me ligando a cobrar, bem, pelo menos tem telefone, isso se não for o celular que eu te comprei com o dinheiro do meu trabalho, mas aí nem precisaria ser a cobrar porque afinal sou eu mesmo que pago a conta dessa merda até hoje, porque nem pra se prostituir você tem talento, isso, uma puta, é isso que você é, o quê? fala de novo, repete, você não tem coragem, isso, desliga, desliga que assim você não me ouve dizer que estou morrendo de saudade, vagabunda.
WSR.
WSR.
. . : : Cegos como todos os amantes : : . .
Não se lembravam um do outro. Não tinham guardado o cheiro um do outro. Se se encontrassem na rua, um diria para o outro, "já não nos conhecemos de algum lugar?", mas aquilo soaria frio ou apenas mais um clichê ou uma cantada barata. Foram amantes um dia, quentes, mas a memória era fraca, desminlingüida.
Naquele dia acordaram cegos. Não enxergavam nada. Em quartos diferentes, a quilômetros de distância, e igualmente na escuridão. Coincidência maior foi não estranharem a limitante novidade, e terem um cachorro, e cada cachorro ter uma coleira, e cada coleira ter uma longa tira. Pegaram os cachorros e saíram, cegos e predestinados, tendo os cachorros como guias.
Pararam quando os cachorros pararam. Numa praça, num banco de braça, num longo banco de praça. Ela sentou do lado esquerdo, ele sentou do lado direito. Cegos para o mundo e um para o outro.
Os cachorros focinharam o chão até se esbarrarem e focinharem um ao outro. Os bigodes afiados afinando o cio: gemidos e fungados. Um puxão na tira da coleira do lado esquerdo do banco. Outro puxão na tira da coleira do lado direito do banco.
Tira que tira. Os cachorros se engalfinhando, procurando a fonte do cheiro e do cio um do outro. Ela e ele deslizando no banco, cada vez mais próximos, tentando descobrir sem os olhos de outrora o que faziam seu cachorro e sua cadela.
Tira que tira. Eles se encostam. A minissaia dela com a calça jeans dele. O braço dele com o braço dela. "Sua cadela...", ele tentou adivinhar. "Seu cachorro", ela confirmou com um pequeno sorriso. O pêlo eriçado do braço dela erigindo o corpo inteiro dele. A barba rala dele ralando de leve o rosto dela.
As bocas abertas, os olhos fechados, esquecidos de que estavam cegos. O beijo molhado, estalado, isolando acusticamente os ouvidos. O sumiço do mundo dentro do mundo, da boca na maré da boca, do outro no desejo do outro.
Abriram os olhos duas horas e dois litros de saliva depois. Abriram os olhos e viram um ao outro como uma criança medrosa que vê, da janela, um relâmpago transplantar a córnea da noite escura.
Continuavam sem se lembrar um do outro, nem guardar o cheiro um do outro. Mas não tiraram o olho um do outro, nem o nariz um do outro. Nunca mais se perderam nem se distraíram, nem mesmo com o agitar desvairado dos rabos de seus cachorros. Ele e ela não precisavam mais de guias. Viviam de beijos, de frios na barriga, de clichês e de cantadas baratas, bem baratinhas, daquelas que se traz aos montes da mercearia com as mãos ainda em concha.
WSR.
Naquele dia acordaram cegos. Não enxergavam nada. Em quartos diferentes, a quilômetros de distância, e igualmente na escuridão. Coincidência maior foi não estranharem a limitante novidade, e terem um cachorro, e cada cachorro ter uma coleira, e cada coleira ter uma longa tira. Pegaram os cachorros e saíram, cegos e predestinados, tendo os cachorros como guias.
Pararam quando os cachorros pararam. Numa praça, num banco de braça, num longo banco de praça. Ela sentou do lado esquerdo, ele sentou do lado direito. Cegos para o mundo e um para o outro.
Os cachorros focinharam o chão até se esbarrarem e focinharem um ao outro. Os bigodes afiados afinando o cio: gemidos e fungados. Um puxão na tira da coleira do lado esquerdo do banco. Outro puxão na tira da coleira do lado direito do banco.
Tira que tira. Os cachorros se engalfinhando, procurando a fonte do cheiro e do cio um do outro. Ela e ele deslizando no banco, cada vez mais próximos, tentando descobrir sem os olhos de outrora o que faziam seu cachorro e sua cadela.
Tira que tira. Eles se encostam. A minissaia dela com a calça jeans dele. O braço dele com o braço dela. "Sua cadela...", ele tentou adivinhar. "Seu cachorro", ela confirmou com um pequeno sorriso. O pêlo eriçado do braço dela erigindo o corpo inteiro dele. A barba rala dele ralando de leve o rosto dela.
As bocas abertas, os olhos fechados, esquecidos de que estavam cegos. O beijo molhado, estalado, isolando acusticamente os ouvidos. O sumiço do mundo dentro do mundo, da boca na maré da boca, do outro no desejo do outro.
Abriram os olhos duas horas e dois litros de saliva depois. Abriram os olhos e viram um ao outro como uma criança medrosa que vê, da janela, um relâmpago transplantar a córnea da noite escura.
Continuavam sem se lembrar um do outro, nem guardar o cheiro um do outro. Mas não tiraram o olho um do outro, nem o nariz um do outro. Nunca mais se perderam nem se distraíram, nem mesmo com o agitar desvairado dos rabos de seus cachorros. Ele e ela não precisavam mais de guias. Viviam de beijos, de frios na barriga, de clichês e de cantadas baratas, bem baratinhas, daquelas que se traz aos montes da mercearia com as mãos ainda em concha.
WSR.

