janeiro 24, 2006
janeiro 10, 2006
. . : : O Amor É uma Prisão de Ventre : : . .
Na porta não havia símbolo algum, devia ter caído. Era a sua desculpa. O que podia fazer se a bonequinha desenhada na porta usava uma saia colada ao corpo? Confundiu-se, ué! Não admitia pra ninguém, mas a pessoa por quem tanto suspirava fora descoberta ali, na portinha do meio do banheiro feminino, num momento de extrema necessidade. Os amigos diziam: "Por que não se declara logo?!??" Bah, não entendiam que era impossível. Com se declarar, se nem a conhecia? Apenas tinha lido seus escritos na parte de dentro da porta, a que dava pro "trono".
Eram as coisas mais lindas que já tinha lido e sabia que tinham nascido um pro outro. Não sabia muito sobre ela. Nome e idade não fazia nem idéia. Fisicamente, nada. Pela extensão de sua obra, escrita com letrinhas redondas, ou sofrera um baita desarranjo, ou escrevia com freqüência ("deve comer bastante cereal!"). Mas era sincera. Sentada naquele assento, só, completamente só, compartilhara seus pensamentos ("levemente de esquerda, hedonista responsável, gosta mais de doce que de salgado...") com o mundo- "bem, pelo menos com o mundo que freqüenta a cabininha do meio desse banheiro feminino...".
No dia seguinte, bastou a barriga começar a doer, e a saudade bateu. Precisava ver se havia um novo recado, mas não imaginava como. Errar de banheiro uma vez, vá lá, mas duas! Podia ser chamado de tarado, ou coisa pior! Não desistiu tão fácil. Bolou estratégias de guerra, virou o rei dos disfarces, mas não deixou passar um dia sem voltar aquele banheiro. Um dia fingiu-se de técnico da manutenção, noutro de funcionário da faxina. Só não vestiu-se de mulher. "Peruca nem pensar!".
Certo dia, tomou coragem. Iria responder. Sobre o que escrever, decidiu não trapacear: pensaria nisso só quando estivesse lá. "Sem dor de barriga não há clima". E a hora finalmente chegou. Foi comer a feijoada, pegar a esferográfica, entrar de fininho e se trancar na cabine. E nada. Nada, nada e nada. Prisão de ventre. Não sabia o que escrever, a inspiração não vinha. Mas não iria desistir, valia a pena lutar por aquele amor, pensou. "Amanhã vou comer dois acarajés".
Eram as coisas mais lindas que já tinha lido e sabia que tinham nascido um pro outro. Não sabia muito sobre ela. Nome e idade não fazia nem idéia. Fisicamente, nada. Pela extensão de sua obra, escrita com letrinhas redondas, ou sofrera um baita desarranjo, ou escrevia com freqüência ("deve comer bastante cereal!"). Mas era sincera. Sentada naquele assento, só, completamente só, compartilhara seus pensamentos ("levemente de esquerda, hedonista responsável, gosta mais de doce que de salgado...") com o mundo- "bem, pelo menos com o mundo que freqüenta a cabininha do meio desse banheiro feminino...".
No dia seguinte, bastou a barriga começar a doer, e a saudade bateu. Precisava ver se havia um novo recado, mas não imaginava como. Errar de banheiro uma vez, vá lá, mas duas! Podia ser chamado de tarado, ou coisa pior! Não desistiu tão fácil. Bolou estratégias de guerra, virou o rei dos disfarces, mas não deixou passar um dia sem voltar aquele banheiro. Um dia fingiu-se de técnico da manutenção, noutro de funcionário da faxina. Só não vestiu-se de mulher. "Peruca nem pensar!".
Certo dia, tomou coragem. Iria responder. Sobre o que escrever, decidiu não trapacear: pensaria nisso só quando estivesse lá. "Sem dor de barriga não há clima". E a hora finalmente chegou. Foi comer a feijoada, pegar a esferográfica, entrar de fininho e se trancar na cabine. E nada. Nada, nada e nada. Prisão de ventre. Não sabia o que escrever, a inspiração não vinha. Mas não iria desistir, valia a pena lutar por aquele amor, pensou. "Amanhã vou comer dois acarajés".
WSR
janeiro 05, 2006
. . : : Ligação Errada : : . .
Tem gente que tem sorte. Até ligação errada dá certo. Amor novo, emprego novo, amigo antigo... tudo cai do céu num simples telefonema que tinha rumo certo para o reino perdido do beleléu.
Tem gente que tem sorte. Mas não é o meu caso. Só conheci o Sérgio. Aliás, nem cheguei a conhecer. Foi assim...
O meu telefone é o que chamo de "telefone de rádio", fácil de decorar, 234-54-32, todo mundo liga, mesmo sem querer. Mas o pessoal ligava mesmo era para o Sérgio:
— Chama o Sérgio aí!
— Não mora nenhum Sérgio aqui - eu respondia.
Isso tantas e tantas vezes que perdi a paciência. Isso tantas e tantas vezes que achei a paciência perdida. Isso tantas e tantas vezes que planejei uma vingança. Isso tantas e tantas vezes que esqueci da vingança. Isso tantas e tantas vezes que um dia...
— O Sérgio taí? — uma voz de mulher perguntou afobada.
Eu não tinha certeza, mas bem que podia estar. Com tanta gente atrás do Sérgio através do meu telefone, era possível que ele morasse aqui mesmo. Sei lá, vai ver que ele trabalhava muito e a gente nunca se encontrava. Ou então ele morava naquele quarto dos fundos em que eu quase nunca ia. A chave da porta da cozinha, por exemplo, sumiu bem na época em que começaram a ligar procurando o Sérgio.
— O Sérgio? — respondi pedindo confirmação.
A mulher parecia estar com pressa:
— É da padaria, não é?
Talvez. Talvez fosse. A julgar pela quantidade de pão, bolacha e biscoito no armário, qualquer um não teria dúvidas. Aliás, como é que eu vivia num lugar há anos e nunca havia percebido que era uma padaria. Eu bem que devia ter desconfiado de minha compulsão por pães e bolos. Uma padaria, claro!
Ou talvez não. Talvez fosse a padaria da esquina. E o Sérgio fosse aquele atendente simpático e boa-pinta, que quase nunca me atendia, é verdade, porque estava sempre ao... meu Deus!, ao telefone... Sim, o cara tinha pinta de galã. Eu nunca tinha lhe perguntado o nome. Mas devia ser Sérgio, com certeza era Sérgio. Deve ter se enchido da mulher e ter dado um número de telefone, um número qualquer, o meu!, dizendo que era um telefone em que os dois teriam mais intimidade para conversar.
Eu não podia deixar o Sérgio na mão. Nunca fui invejoso. Só porque ele comia todas as menininhas do bairro e eu estava na maior secura... Não, eu não podia deixá-lo na mão. Quando o Sérgio me atendia, era sempre um pãozinho quente, saído do forno. O Sérgio era gente boa.
— Sim, é da padaria — falei convicto.
— Ele ainda está na reunião? — insistiu a mulher.
Pensando bem, era uma possibilidade. Talvez o Sérgio não fosse o atendente, mas o dono da padaria, dessa padaria que é a minha casa. E se eu nunca tinha visto o Sérgio por aqui é porque ele vivia em reuniões.
— Sim, está — confirmei.
— Você pede pra ele ligar pra Cláudia quando acabar? — suplicou a mulher.
Mas como não? Era a minha chance de conhecer o Sérgio. Não seria fácil, é verdade. Talvez ele não estivesse interessado em trocar nem duas palavras com alguém que morava na padaria dele e que comia todos os pães, biscoitos, bolachas e bolos que lhe apareciam na frente. Mas não custava nada tentar.
— Claro, pode deixar que dou o recado — tranqüilizei a mulher.
Ela desligou agradecida. Eu fiquei atento. Espreitando o surgimento do Sérgio por quase uma hora. Mas me distraí comendo alguma coisa e o telefone tocou de novo.
— É a Cláudia. O Sérgio já saiu da reunião?
Só podia. Eu não vi, é claro, mas uma hora daquelas, quase sete da noite, não era possível que o Sérgio ainda estivesse na reunião. Deve ter saído por uma porta secreta, ou saiu pela sala quando eu estava na cozinha, ou saiu pela cozinha quando eu estava na sala.
— Já, Cláudia — falei com pena.
Ela ficou em silêncio. Como quem pensa no que fazer. Eu emendei:
— Ele não ligou pra você, não? —
— Não — respondeu ela desapontada, quase chorando.
Não agüento ver mulher triste. Fico logo comovido. Cretino do Sérgio! Nem pra ligar pra Cláudia. Tudo bem que não quisesse me ver, que saísse escondido. Mas o meu recado ele ouviu. Ah, ouviu! O que eu ensaiei o recado em voz alta... "Sr. Sérgio, a dona Cláudia ligou e pediu para o senhor retornar a ligação", "Seu Sérgio, a dona Cláudia ligou", "Um recado pro senhor, Dr. Sérgio, a Cláudia pediu pra ligar pra ela". Cretino! Safado! Enganador de mulheres indefesas.
— Pois eu dei o recado, Cláudia. Assim que a reunião acabou eu dei o recado.
Ela agradeceu desiludida e com raiva. E desligou.
Desde então nunca mais.
Tem gente que tem sorte. Mas não é o meu caso. Só conheci o Sérgio. Aliás, nem cheguei a conhecer. Foi assim...
O meu telefone é o que chamo de "telefone de rádio", fácil de decorar, 234-54-32, todo mundo liga, mesmo sem querer. Mas o pessoal ligava mesmo era para o Sérgio:
— Chama o Sérgio aí!
— Não mora nenhum Sérgio aqui - eu respondia.
Isso tantas e tantas vezes que perdi a paciência. Isso tantas e tantas vezes que achei a paciência perdida. Isso tantas e tantas vezes que planejei uma vingança. Isso tantas e tantas vezes que esqueci da vingança. Isso tantas e tantas vezes que um dia...
— O Sérgio taí? — uma voz de mulher perguntou afobada.
Eu não tinha certeza, mas bem que podia estar. Com tanta gente atrás do Sérgio através do meu telefone, era possível que ele morasse aqui mesmo. Sei lá, vai ver que ele trabalhava muito e a gente nunca se encontrava. Ou então ele morava naquele quarto dos fundos em que eu quase nunca ia. A chave da porta da cozinha, por exemplo, sumiu bem na época em que começaram a ligar procurando o Sérgio.
— O Sérgio? — respondi pedindo confirmação.
A mulher parecia estar com pressa:
— É da padaria, não é?
Talvez. Talvez fosse. A julgar pela quantidade de pão, bolacha e biscoito no armário, qualquer um não teria dúvidas. Aliás, como é que eu vivia num lugar há anos e nunca havia percebido que era uma padaria. Eu bem que devia ter desconfiado de minha compulsão por pães e bolos. Uma padaria, claro!
Ou talvez não. Talvez fosse a padaria da esquina. E o Sérgio fosse aquele atendente simpático e boa-pinta, que quase nunca me atendia, é verdade, porque estava sempre ao... meu Deus!, ao telefone... Sim, o cara tinha pinta de galã. Eu nunca tinha lhe perguntado o nome. Mas devia ser Sérgio, com certeza era Sérgio. Deve ter se enchido da mulher e ter dado um número de telefone, um número qualquer, o meu!, dizendo que era um telefone em que os dois teriam mais intimidade para conversar.
Eu não podia deixar o Sérgio na mão. Nunca fui invejoso. Só porque ele comia todas as menininhas do bairro e eu estava na maior secura... Não, eu não podia deixá-lo na mão. Quando o Sérgio me atendia, era sempre um pãozinho quente, saído do forno. O Sérgio era gente boa.
— Sim, é da padaria — falei convicto.
— Ele ainda está na reunião? — insistiu a mulher.
Pensando bem, era uma possibilidade. Talvez o Sérgio não fosse o atendente, mas o dono da padaria, dessa padaria que é a minha casa. E se eu nunca tinha visto o Sérgio por aqui é porque ele vivia em reuniões.
— Sim, está — confirmei.
— Você pede pra ele ligar pra Cláudia quando acabar? — suplicou a mulher.
Mas como não? Era a minha chance de conhecer o Sérgio. Não seria fácil, é verdade. Talvez ele não estivesse interessado em trocar nem duas palavras com alguém que morava na padaria dele e que comia todos os pães, biscoitos, bolachas e bolos que lhe apareciam na frente. Mas não custava nada tentar.
— Claro, pode deixar que dou o recado — tranqüilizei a mulher.
Ela desligou agradecida. Eu fiquei atento. Espreitando o surgimento do Sérgio por quase uma hora. Mas me distraí comendo alguma coisa e o telefone tocou de novo.
— É a Cláudia. O Sérgio já saiu da reunião?
Só podia. Eu não vi, é claro, mas uma hora daquelas, quase sete da noite, não era possível que o Sérgio ainda estivesse na reunião. Deve ter saído por uma porta secreta, ou saiu pela sala quando eu estava na cozinha, ou saiu pela cozinha quando eu estava na sala.
— Já, Cláudia — falei com pena.
Ela ficou em silêncio. Como quem pensa no que fazer. Eu emendei:
— Ele não ligou pra você, não? —
— Não — respondeu ela desapontada, quase chorando.
Não agüento ver mulher triste. Fico logo comovido. Cretino do Sérgio! Nem pra ligar pra Cláudia. Tudo bem que não quisesse me ver, que saísse escondido. Mas o meu recado ele ouviu. Ah, ouviu! O que eu ensaiei o recado em voz alta... "Sr. Sérgio, a dona Cláudia ligou e pediu para o senhor retornar a ligação", "Seu Sérgio, a dona Cláudia ligou", "Um recado pro senhor, Dr. Sérgio, a Cláudia pediu pra ligar pra ela". Cretino! Safado! Enganador de mulheres indefesas.
— Pois eu dei o recado, Cláudia. Assim que a reunião acabou eu dei o recado.
Ela agradeceu desiludida e com raiva. E desligou.
Desde então nunca mais.
WSR

