. . : : O Amor É uma Prisão de Ventre : : . .
Na porta não havia símbolo algum, devia ter caído. Era a sua desculpa. O que podia fazer se a bonequinha desenhada na porta usava uma saia colada ao corpo? Confundiu-se, ué! Não admitia pra ninguém, mas a pessoa por quem tanto suspirava fora descoberta ali, na portinha do meio do banheiro feminino, num momento de extrema necessidade. Os amigos diziam: "Por que não se declara logo?!??" Bah, não entendiam que era impossível. Com se declarar, se nem a conhecia? Apenas tinha lido seus escritos na parte de dentro da porta, a que dava pro "trono".
Eram as coisas mais lindas que já tinha lido e sabia que tinham nascido um pro outro. Não sabia muito sobre ela. Nome e idade não fazia nem idéia. Fisicamente, nada. Pela extensão de sua obra, escrita com letrinhas redondas, ou sofrera um baita desarranjo, ou escrevia com freqüência ("deve comer bastante cereal!"). Mas era sincera. Sentada naquele assento, só, completamente só, compartilhara seus pensamentos ("levemente de esquerda, hedonista responsável, gosta mais de doce que de salgado...") com o mundo- "bem, pelo menos com o mundo que freqüenta a cabininha do meio desse banheiro feminino...".
No dia seguinte, bastou a barriga começar a doer, e a saudade bateu. Precisava ver se havia um novo recado, mas não imaginava como. Errar de banheiro uma vez, vá lá, mas duas! Podia ser chamado de tarado, ou coisa pior! Não desistiu tão fácil. Bolou estratégias de guerra, virou o rei dos disfarces, mas não deixou passar um dia sem voltar aquele banheiro. Um dia fingiu-se de técnico da manutenção, noutro de funcionário da faxina. Só não vestiu-se de mulher. "Peruca nem pensar!".
Certo dia, tomou coragem. Iria responder. Sobre o que escrever, decidiu não trapacear: pensaria nisso só quando estivesse lá. "Sem dor de barriga não há clima". E a hora finalmente chegou. Foi comer a feijoada, pegar a esferográfica, entrar de fininho e se trancar na cabine. E nada. Nada, nada e nada. Prisão de ventre. Não sabia o que escrever, a inspiração não vinha. Mas não iria desistir, valia a pena lutar por aquele amor, pensou. "Amanhã vou comer dois acarajés".
Eram as coisas mais lindas que já tinha lido e sabia que tinham nascido um pro outro. Não sabia muito sobre ela. Nome e idade não fazia nem idéia. Fisicamente, nada. Pela extensão de sua obra, escrita com letrinhas redondas, ou sofrera um baita desarranjo, ou escrevia com freqüência ("deve comer bastante cereal!"). Mas era sincera. Sentada naquele assento, só, completamente só, compartilhara seus pensamentos ("levemente de esquerda, hedonista responsável, gosta mais de doce que de salgado...") com o mundo- "bem, pelo menos com o mundo que freqüenta a cabininha do meio desse banheiro feminino...".
No dia seguinte, bastou a barriga começar a doer, e a saudade bateu. Precisava ver se havia um novo recado, mas não imaginava como. Errar de banheiro uma vez, vá lá, mas duas! Podia ser chamado de tarado, ou coisa pior! Não desistiu tão fácil. Bolou estratégias de guerra, virou o rei dos disfarces, mas não deixou passar um dia sem voltar aquele banheiro. Um dia fingiu-se de técnico da manutenção, noutro de funcionário da faxina. Só não vestiu-se de mulher. "Peruca nem pensar!".
Certo dia, tomou coragem. Iria responder. Sobre o que escrever, decidiu não trapacear: pensaria nisso só quando estivesse lá. "Sem dor de barriga não há clima". E a hora finalmente chegou. Foi comer a feijoada, pegar a esferográfica, entrar de fininho e se trancar na cabine. E nada. Nada, nada e nada. Prisão de ventre. Não sabia o que escrever, a inspiração não vinha. Mas não iria desistir, valia a pena lutar por aquele amor, pensou. "Amanhã vou comer dois acarajés".
WSR

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