julho 13, 2006

. . : : Apesar de você : : . .

Diz a canção: “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. E se o poeta falou, tá falado, mas nem por isso o assunto foi enterrado, ficou esquecido. Os poetas costumam embrulhar metáforas em papel de pão amanhecido pra comilança da alma... Mais tarde. Na solidão das luas.

Apesar de você, meu dia passa, as estações do ano também. No reboco das novas casas, nos carros parados em frente a faróis indecisos, nos sons dos pratos das lanchonetes sendo lavados, o tempo esbarra. E há volúpia na valsa composta, exclusivamente, para aquele instante em que a lua e o sol parecem um.

Apesar de você, o mundo gira, a violência tenta, a todo custo, reverberar mais do que a paz. E os moleques lavam os pés nas valetas em dia de enxurrada, brincam de mocinho e bandido e acabam estendidos no chão, antecipando o fato que há de assolar suas biografias. Mas sorriem, os olhos voltados ao céu. A liberdade lambendo suas barrigas.

Apesar de você, os amores escasseiam e também acontecem. As luzes das casas são apagadas para a hora do sono, do pranto, do vergar à solidão e também para que mãos tateiem corpos alheios. E as pessoas envelhecem. Você envelhece. Eu. Nós. Os sonhos.

Apesar de você, amanhã há de ser e com todos seus melindres e bálsamos. Ainda que eu aquiete na espera de que, no acontecer de outro dia, você apareça no verso seguinte, na soleira da porta, um sorriso sincero de presente e um gole de realidade para assanhar a poesia.
WSR