agosto 15, 2006

. . : : Com o mundo sobre nós : : . .

Todos os dias é renascer, reinventar-se, reintegrar-se, revalidar-se, reavaliar-se... Almejamos a transcendência, a eloqüência, a divindade. Buscamos a serenidade, mas com aquele quê de loucura da qual somos incapazes de viver sem. E têm a carreira, a casa-comida-roupa-lavada, os estudos, as observâncias, a felicidade. Há muito que aprender com o mundo e sobre nós mesmos.

Mas então o tempo passa: renascer, reinventar-se, reintegrar-se, revalidar-se, reavaliar-se... Impossível não experimentar de um desgaste dos sonhos, de um desconforto, uma necessidade de apaziguamento. E desejar um tempo de sossego.

No sossego, as descobertas podem ser profundas e acolhedoras. Há períodos em que tudo bem viver SOMENTE delas. Mas sabemos que a eternidade (o até-o-final-dos-tempos-que-não-tem-fim), tem vida curta. Então: almejamos a irreverência, o despudor, o êxtase emocional. Buscamos as saídas mais difíceis, colocamos em risco a carreira, casa-comida-roupa-lavada; estancamos a observância e facilitamos para a tristeza chegar e nos acompanhar num silêncio desmedido.

Mas então o tempo passa: renascer, reinventar-se, reintegrar-se, revalidar-se, reavaliar-se... Ciclos são fechados, nossa biografia é atualizada: amores, destemperos, despedidas, desastres que nos comovem, dores que se curam com assopros, partidas que nos partem ao meio e ninguém mais consegue colar os pedaços, nem mesmo nós. Almejamos sabedoria para viver o que vier com bom gosto. Da transcendência tiramos um naco de divindade que nos acompanha entre sortilégios e milagres. Buscamos a quietude para reflexões que, de tão profundas, nem sempre conseguimos alcançar. Deixamo-nos deleitar pelo simples ainda que fundamental fato de que estamos vivos. Bendizemos cada dia, até mesmo aqueles em que experimentamos das cruezas da dor. Até os dias que passaram em branco, como se tivéssemos nos atirado em queda-livre por um vão que dava pra lugar nenhum.

E ainda há muito que aprender com o mundo e sobre nós mesmos.
WSR.

agosto 09, 2006

. . : : Movimento : : . .

Nos últimos meses, a minha vida tem girado em torno de uma mudança que eu não pedi, mas está acontecendo. Não se trata de uma mudança arquitetada, tampouco uma tentativa de me tornar outra pessoa que não eu mesmo. A mudança, ao contrário do que muitos rezam ao terço em busca de proteção contra ela e a favor de uma segurança falseada, às vezes consiste em não tirar nada (ou a si mesmo) do lugar, mas sim assumir opiniões, desejos, objetivos, planos, ideais, sonhos que, no decorrer da vida, vamos arquivando em algum lugar dentro de nós por nos sentirmos intimidados com as provações cotidianas que sofremos.
Muito do que estabelecemos como conquista futura aos dez anos de idade, por exemplo, pode fazer mais sentido hoje do que as conquistas que aspiramos enquanto adultos moldados pelas situações que a vida nos impôs até o momento. E não estou creditando à vida a culpa de nos tornarmos o arquétipo do medo de conduzir a nós mesmos, porque a ela eu sempre cedi as vestes de milagre. Porque é bom acordar todos os dias. É bom ter outra chance, e mais outra, e então, outras.
Este (meu) momento de mudança delegou a mim a função de descortinar o movimento. Eu que, desde sempre, transformei gestos - dos mais pueris aos mais ousados - em prosa e poesia, estou sendo obrigado a trazer à realidade uma parte considerável da minha imaginação; tendo de aplicá-la no diariamente, na rotina, em tudo o que, de alguma forma, imaginamos como antítese do universo imaginário. E o mais impressionante é que a maior parte dessa minha imaginação cabe, ou se adapta sem dificuldades, ao que muitas das pessoas a minha volta necessitam de mim. Daquilo que sei fazer, de parte da minha tão querida loucura aos momentos de lucidez e capacidade de racionalizar situações emocionalmente confusas, tudo tem feito parte de um movimento que, já adulto, não imaginei dele poder participar. E a sensação é de estar beijando a liberdade na boca, assim como eu costumava sonhar, aos dez anos de idade, fazer num futuro repleto de possibilidades.
Este movimento também me esclareceu que certas coisas fogem ao controle de qualquer ser humano. Portanto, não me esvaio mais em desespero quando erro a mão, quando não consigo atender as expectativas das outras pessoas. Faço questão de tomar cuidado para não prejudicá-las durante o meu processo de movimento-adverso-intenso-atrevido, às vezes, até bem sacana comigo. Mas ele sabe o que faz e eu aceito, agradecido, as manobras dele. Porque, desde que ele resolveu bagunçar a minha vida, eu tenho a impressão de que ela nunca esteve tão no lugar. E busco na infância a lembrança de estar girando e girando, braços abertos como se fosse possível abraçar o vento, os olhos voltados ao céu, pés descalços roçando a grama. E, naquela busca pelo torpor da tontura, pelo desprender-se da realidade, eu libertava ao universo os meus segredos, os meus desejos. E hoje, aqui e agora, me dou conta de que tudo o que desejei naquela época é viável e condiz com quem sou neste momento; com quem nunca deixei de ser, apesar de ter encoberto este fato de mim mesmo.
Quer saber o que desejei? Ser capaz de viver sem que o medo fosse o meu guia. E acreditem, muitas pessoas desejam isso aos dez anos de idade.
E você? O que deseja?
WSR