. . : : Movimento : : . .
Nos últimos meses, a minha vida tem girado em torno de uma mudança que eu não pedi, mas está acontecendo. Não se trata de uma mudança arquitetada, tampouco uma tentativa de me tornar outra pessoa que não eu mesmo. A mudança, ao contrário do que muitos rezam ao terço em busca de proteção contra ela e a favor de uma segurança falseada, às vezes consiste em não tirar nada (ou a si mesmo) do lugar, mas sim assumir opiniões, desejos, objetivos, planos, ideais, sonhos que, no decorrer da vida, vamos arquivando em algum lugar dentro de nós por nos sentirmos intimidados com as provações cotidianas que sofremos.
Muito do que estabelecemos como conquista futura aos dez anos de idade, por exemplo, pode fazer mais sentido hoje do que as conquistas que aspiramos enquanto adultos moldados pelas situações que a vida nos impôs até o momento. E não estou creditando à vida a culpa de nos tornarmos o arquétipo do medo de conduzir a nós mesmos, porque a ela eu sempre cedi as vestes de milagre. Porque é bom acordar todos os dias. É bom ter outra chance, e mais outra, e então, outras.
Este (meu) momento de mudança delegou a mim a função de descortinar o movimento. Eu que, desde sempre, transformei gestos - dos mais pueris aos mais ousados - em prosa e poesia, estou sendo obrigado a trazer à realidade uma parte considerável da minha imaginação; tendo de aplicá-la no diariamente, na rotina, em tudo o que, de alguma forma, imaginamos como antítese do universo imaginário. E o mais impressionante é que a maior parte dessa minha imaginação cabe, ou se adapta sem dificuldades, ao que muitas das pessoas a minha volta necessitam de mim. Daquilo que sei fazer, de parte da minha tão querida loucura aos momentos de lucidez e capacidade de racionalizar situações emocionalmente confusas, tudo tem feito parte de um movimento que, já adulto, não imaginei dele poder participar. E a sensação é de estar beijando a liberdade na boca, assim como eu costumava sonhar, aos dez anos de idade, fazer num futuro repleto de possibilidades.
Este movimento também me esclareceu que certas coisas fogem ao controle de qualquer ser humano. Portanto, não me esvaio mais em desespero quando erro a mão, quando não consigo atender as expectativas das outras pessoas. Faço questão de tomar cuidado para não prejudicá-las durante o meu processo de movimento-adverso-intenso-atrevido, às vezes, até bem sacana comigo. Mas ele sabe o que faz e eu aceito, agradecido, as manobras dele. Porque, desde que ele resolveu bagunçar a minha vida, eu tenho a impressão de que ela nunca esteve tão no lugar. E busco na infância a lembrança de estar girando e girando, braços abertos como se fosse possível abraçar o vento, os olhos voltados ao céu, pés descalços roçando a grama. E, naquela busca pelo torpor da tontura, pelo desprender-se da realidade, eu libertava ao universo os meus segredos, os meus desejos. E hoje, aqui e agora, me dou conta de que tudo o que desejei naquela época é viável e condiz com quem sou neste momento; com quem nunca deixei de ser, apesar de ter encoberto este fato de mim mesmo.
Quer saber o que desejei? Ser capaz de viver sem que o medo fosse o meu guia. E acreditem, muitas pessoas desejam isso aos dez anos de idade.
E você? O que deseja?
WSR

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