. . : : Cegos como todos os amantes : : . .
Não se lembravam um do outro. Não tinham guardado o cheiro um do outro. Se se encontrassem na rua, um diria para o outro, "já não nos conhecemos de algum lugar?", mas aquilo soaria frio ou apenas mais um clichê ou uma cantada barata. Foram amantes um dia, quentes, mas a memória era fraca, desminlingüida.
Naquele dia acordaram cegos. Não enxergavam nada. Em quartos diferentes, a quilômetros de distância, e igualmente na escuridão. Coincidência maior foi não estranharem a limitante novidade, e terem um cachorro, e cada cachorro ter uma coleira, e cada coleira ter uma longa tira. Pegaram os cachorros e saíram, cegos e predestinados, tendo os cachorros como guias.
Pararam quando os cachorros pararam. Numa praça, num banco de braça, num longo banco de praça. Ela sentou do lado esquerdo, ele sentou do lado direito. Cegos para o mundo e um para o outro.
Os cachorros focinharam o chão até se esbarrarem e focinharem um ao outro. Os bigodes afiados afinando o cio: gemidos e fungados. Um puxão na tira da coleira do lado esquerdo do banco. Outro puxão na tira da coleira do lado direito do banco.
Tira que tira. Os cachorros se engalfinhando, procurando a fonte do cheiro e do cio um do outro. Ela e ele deslizando no banco, cada vez mais próximos, tentando descobrir sem os olhos de outrora o que faziam seu cachorro e sua cadela.
Tira que tira. Eles se encostam. A minissaia dela com a calça jeans dele. O braço dele com o braço dela. "Sua cadela...", ele tentou adivinhar. "Seu cachorro", ela confirmou com um pequeno sorriso. O pêlo eriçado do braço dela erigindo o corpo inteiro dele. A barba rala dele ralando de leve o rosto dela.
As bocas abertas, os olhos fechados, esquecidos de que estavam cegos. O beijo molhado, estalado, isolando acusticamente os ouvidos. O sumiço do mundo dentro do mundo, da boca na maré da boca, do outro no desejo do outro.
Abriram os olhos duas horas e dois litros de saliva depois. Abriram os olhos e viram um ao outro como uma criança medrosa que vê, da janela, um relâmpago transplantar a córnea da noite escura.
Continuavam sem se lembrar um do outro, nem guardar o cheiro um do outro. Mas não tiraram o olho um do outro, nem o nariz um do outro. Nunca mais se perderam nem se distraíram, nem mesmo com o agitar desvairado dos rabos de seus cachorros. Ele e ela não precisavam mais de guias. Viviam de beijos, de frios na barriga, de clichês e de cantadas baratas, bem baratinhas, daquelas que se traz aos montes da mercearia com as mãos ainda em concha.
WSR.
Naquele dia acordaram cegos. Não enxergavam nada. Em quartos diferentes, a quilômetros de distância, e igualmente na escuridão. Coincidência maior foi não estranharem a limitante novidade, e terem um cachorro, e cada cachorro ter uma coleira, e cada coleira ter uma longa tira. Pegaram os cachorros e saíram, cegos e predestinados, tendo os cachorros como guias.
Pararam quando os cachorros pararam. Numa praça, num banco de braça, num longo banco de praça. Ela sentou do lado esquerdo, ele sentou do lado direito. Cegos para o mundo e um para o outro.
Os cachorros focinharam o chão até se esbarrarem e focinharem um ao outro. Os bigodes afiados afinando o cio: gemidos e fungados. Um puxão na tira da coleira do lado esquerdo do banco. Outro puxão na tira da coleira do lado direito do banco.
Tira que tira. Os cachorros se engalfinhando, procurando a fonte do cheiro e do cio um do outro. Ela e ele deslizando no banco, cada vez mais próximos, tentando descobrir sem os olhos de outrora o que faziam seu cachorro e sua cadela.
Tira que tira. Eles se encostam. A minissaia dela com a calça jeans dele. O braço dele com o braço dela. "Sua cadela...", ele tentou adivinhar. "Seu cachorro", ela confirmou com um pequeno sorriso. O pêlo eriçado do braço dela erigindo o corpo inteiro dele. A barba rala dele ralando de leve o rosto dela.
As bocas abertas, os olhos fechados, esquecidos de que estavam cegos. O beijo molhado, estalado, isolando acusticamente os ouvidos. O sumiço do mundo dentro do mundo, da boca na maré da boca, do outro no desejo do outro.
Abriram os olhos duas horas e dois litros de saliva depois. Abriram os olhos e viram um ao outro como uma criança medrosa que vê, da janela, um relâmpago transplantar a córnea da noite escura.
Continuavam sem se lembrar um do outro, nem guardar o cheiro um do outro. Mas não tiraram o olho um do outro, nem o nariz um do outro. Nunca mais se perderam nem se distraíram, nem mesmo com o agitar desvairado dos rabos de seus cachorros. Ele e ela não precisavam mais de guias. Viviam de beijos, de frios na barriga, de clichês e de cantadas baratas, bem baratinhas, daquelas que se traz aos montes da mercearia com as mãos ainda em concha.
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